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Mudar nome de rua
é ato político
Sérgio Buarque de Gusmão
Mudança de nome de rua agrada a uns e irrita outros. É
sempre efeito do mito fundador, a impressão da marca de uma ruptura, como a
República sobre a Monarquia, ou de uma corrente política, e mesmo de uma
administração que se diferencia da anterior com nova doutrina e visão do mundo
– sem falar do prazer dos vitoriosos em apagar o rastro histórico dos vencidos.
Logo, as letrinhas nas tabuletas refletem a escolha dos heróis entronizados
pelos poderosos do dia. Como há muito mais heróis do que ruas, a 15 de
Agosto virou Presidente Vargas, a Lauro Sodré tornou-se Ó de Almeida e a Tv. do
Landi foi rebatizada como Padre Prudêncio.
Derrotados, os combatentes da Cabanagem foram proscritos do
mapa de Belém porque eram um exemplo a ser evitado. Cumpria apagá-los da
memória histórica da cidade. Todas as transformações políticas que vieram a
seguir não lhes repararam a injustiça, nem mesmo a República ou a Revolução de
30. Até a redemocratização do País, e em particular a gestão do atual prefeito
Edmílson Rodrigues, que se diz cabano, estavam fora da história e das ruas. Um
e outro emprestaram o nome a um logradouro, mas nada tão marcante quanto a
homenagem à Guerra do Paraguai que cobriu as ruas do Marco. Eduardo Angelim
chegou a ser o nome da Tv. Piedade e hoje é uma passagem pros lados da
Marambaia. Tiradentes foi resgatado da maldição do Império pela República, que
encheu o país com monumentos e logradouros em homenagem ao herói da Conjuração
Mineira. Em São Paulo, as ruas e praças Getúlio Vargas ficam na periferia
distante, enquanto as datas da rebelião que 1932 que enfrentou o caudilho estão
estampadas em grandes avenidas centrais, como a 9 de Julho e a 23 de Maio.
Dar e mudar nome de rua é um ato político. Em sua coluna Hoje
na vida do Pará, no Liberal de 14/04, José Valente nota que muitas
ruas do Umarizal remontam ao século XIX. “O século XX não os esqueceu. No
século XXI, haverá por certo algum ilustre vereador, analfabeto em História do
Pará, querendo extirpá-los.” Boaventura da Silva, Domingos Marreiro, Bernal do
Couto, Oliveira Belo, o italiano João Balbi são próceres da Revolução
Nacionalista de 1823. O Brasil já estava separado de Portugal, mas, seis meses
depois, 270 nacionalistas do Pará eram condenados à morte por pregar a adesão
do estado à Independência. A sentença terminou suspensa por interferência de
amigos, embora alguns tenham sido assassinados pelas condições insalubres do
navio em que foram desterrados para Lisboa.
Há uma pequena glória cartográfica em morar numa rua dessas.
A maioria das pessoas talvez não dê a mínima, mas sempre me interessei em
conhecer a obra do nome que autografa a rua ou o bairro onde vivo. Em Belém
morei, entre outras, na rua do historiador e jornalista Manuel Barata e, em
plena ditadura militar, amarguei um endereço no conjunto Costa e Silva. Nem
sempre se pode escolher, mas, quando se pode, é um prazer ver, no envelope que
o carteiro entrega, nosso nome associado a alguém que admiramos.
Flor do Lácio
Ave, palavra – Palavras, como pessoas, causam boa ou
má impressão no primeiro encontro. Algumas geram antipatia imediata, e nos
recusamos a usá-las pelo resto da vida. Outras são caso de amor à primeira
vista. Esses dias o dicionário me apresentou axelho, que eu nunca vira mais
gorda. Agradavelmente surpreso, exclamei: Ah!, então é você o pêlo das axilas!
Axé, axi – A leitura nos reconcilia com palavras com
que rompemos na infância. Nunca disse axi na vida, ao menos que me lembre. Mas,
agora, acho-a um muiraquitã sonoro.
Levem um português
para o Lazio
É inacreditável a permanência do racismo no futebol da
Itália. Leia-se racismo no Lazio, cuja torcida hostiliza jogadores negros dos
times adversários. Num jogo contra o Roma, há duas semanas, os nazistóides da
arquibancada exibiram faixas com os dizeres “Time de negros”, referindo-se aos
brasileiros Aldair, Cafu, Emerson e Marcos Assunção. O Lazio perdeu o mando do
jogo seguinte e foi multado em 28 mil dólares. Seu presidente, Sergio
Cragnotti, usou a velha e esfarrapada disputa: as faixas foram levadas por
torcedores de outros clubes interessados em comprometer o Lazio. Bem, parece
que há por lá uma filial da Ku-Klux-Kan. No ano passado, num jogo com o Arsenal
da Inglaterra, o meia iugoslavo Sinisa Mihajlovic insultou o francês e negro
Patrick Vieira. O clube pôs panos quentes.
Seria fácil de acreditar que se trata de selvageria isolada
de torcida neonazista se um só negro jogasse no Lazio, mas há cinco anos o time
romano não contrata um desses artistas da bola que deram ao futebol um gingado de
dança. No Brasil, coube aos portugueses, mais uma vez, desferir um golpe mortal
no racismo. Foi o Vasco da Gama que, em 1923, enfrentou os grandes (e
elitistas) clubes do Rio, liderados pelo Fluminense, que queriam embranquecer o
futebol. Campeão carioca com um time de humilhados e ofendidos, o Vasco
recusou-se a participar de uma liga da qual os jogadores de origem humilde – em
geral trabalhadores negros e mestiços – seriam excluídos sob o pretexto de que
eram profissionais.
O Vasco teria de dispensar mais que um time – doze atletas
–, e se recusou: “São esses doze jogadores jovens quase todos brasileiros no
começo de sua carreira, e o ato público que os pode macular nunca será
praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu nem sob o
pavilhão que eles com tanta galhardia cobriram de glórias,” disse o presidente
do clube, Jose' Augusto Prestes. O time de portugueses ficou na liga dos pequenos. No ano seguinte,
as ligas foram fundidas e proclamou-se a carta de alforria dos jogadores negros.
Em 1988, por ocasião do centenário da Abolição da Escravatura, o Vasco tinha
cacife para se dizer “um clube tão preto e branco quanto o Brasil.”
Miscelânea
Gilberto Freire, com o livro incompreendido e difamado (pela
esquerda) Casa Grande & Senzala, mostrou que a miscigenação é a arma
mais eficaz contra o racismo.
# O Dr. Ivo Pitanguy, em entrevista à revista Veja,
confirma: “Os homens brasileiros passaram a venerar a mama grande por
influência da cultura americana. Não vou citar nomes, mas algumas mamas foram
feitas um pouco maiores do que o recomendável.”
# Faz sucesso a vela de andiroba para espantar
mosquito. Foi desenvolvida na Fundação Osvaldo Cruz (Manguinhos), no Rio, e
licenciada para um laboratório de Pernambuco.
# Há um grande e elitista preconceito contra o tal do
“funk” e sua coreografia erótica. É mais ou menos o que se dizia do lundu, do
samba, da capoeira – músicas e dança de negros que, perto da valsinha dos
serões afetados, pareciam mesmo o furacão da decadência.
06/maio/2001
Publicado originalmente na revista virtual
belemdopara.com.br
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