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Uma lágrima verde pela Sudam
Sérgio Buarque de Gusmão
O noticiário sobre a Sudam inspira duas reflexões imediatas,
pelas vertentes da corrupção e da extinção:
A corrupção, tal como relatada pela imprensa, é tanta
e tão deslavada que fica difícil entender como pode ter sido praticada em tal
volume e por tanto tempo. É incompreensível que num universo de 508
funcionários (nem tantos: a Câmara Municipal de São Paulo tem 2.200) não
surgissem resistências além dos pareceres de um e outro procurador – pareceres
que em geral não impediram o desvio do dinheiro público. Toda sorte de
cumplicidade, negligência e desídia transparecem nos relatórios da Advocacia
Geral da União. As irregularidades são tão flagrantes que é impossível a quem
tem olhos deixar de vê-las. Seria como um médico examinar um leproso e ignorar
a doença.
Uma maracutaia emblemática – não pelo volume, mas pela
desfaçatez – é a do projeto Frango Modelo,
em Altamira, que em dois anos embolsou R$ 5,9 milhões e construiu uma placa.
Quase 3 milhões de dólares por uma placa. As empresas-fantasmas amamentam seus
abantesmas no seio gentil de um governo que dá milhões a empresários
inescrupulosos e R$ 15 para a bolsa-escola. É assim que se transfere renda dos
pobres para os ricos. O dinheiro dos incentivos fiscais sai do imposto que
originalmente deveria bancar o giz da escola e o esparadrapo do posto de saúde.
O senador Antonio Carlos Magalhães, que entende desses assuntos, garante que as
fraudes na Sudam chegam a R$
1 bilhão.
A extinção segue o figurino de desmonte do Estado,
talhado no projeto neoliberal do governo Fernando Henrique Cardoso. A moda é
coibir a intervenção direta e criar agências reguladoras (Anatel, por exemplo),
que não formulam políticas segundo o interesse nacional, e abrir os cofres do
BNDES ao capital privado, inclusive o estrangeiro. O projeto pessoal do
presidente é acabar com a marca getulista – não esquecer que a Sudam, nascida
em 1966, é sucessora da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da
Amazônia (SPVEA), criada por Getúlio Vargas em 1953.
A concessão de incentivos fiscais para investimentos em
áreas atrasadas, como a Amazônia e o Nordeste, sempre foi polêmica. Ainda ecoa
na mata, como um verso de Augusto dos Anjos (“E quando a árvore caiu/aos golpes
do machado bronco...”), a política do ministro Reis Veloso, do Planejamento, no
governo Médici, estabelecendo que a “vocação da Amazônia é a pecuária.” A
demência foi ao ponto de grupos econômicos situados na ponta do capitalismo,
como bancos (Bradesco) e multinacionais de automóveis (Volkswagen), terem se
tornado grandes proprietários de terra na região, quando sua tarefa histórica
era fazer a reforma agrária.
Inspirada na Sudene, criada por Celso Furtado para o
Nordeste, a Sudam tinha o papel de amenizar um drama nacional: as disparidades
regionais. Cabia a ela, também, articular um projeto
para a Amazônia – uma jóia da natureza que o Brasil ainda não soube
lapidar. As animosidades brasileiras são internas. Não brigamos com vizinhos,
mas com nossos intrapaíses. Em entrevista a Reali Jr., no Estadão, Celso Furtado
disse que a extinção da Sudene “seria uma volta ao passado, aos tempos em que
se acumulavam atrasos em relação às regiões do sul do País. Isso poderia criar
fraturas que sabidamente constituem uma ameaça à unidade nacional.” Idem quanto
à Sudam.
Apesar dos desacertos, a autarquia tornou-se importante para
ser sacrificada desta maneira. Não deve acabar por conta da roubalheira. Deve
ser saneada e fortalecida, fiscalizada por um conselho deliberativo do qual
participem representantes da sociedade que não cometam o descaramento de pagar
3 milhões de dólares por uma placa. Exterminá-la sumariamente equivaleria a
extinguir a Presidência da República durante os escândalos do governo Collor.
Ou acabar com a Petrobrás por conta dos numerosos acidentes que enlutam a
empresa.
Lebre por gato – Interesso-me, na página do Liberal, por um artigo de Zeno
Veloso sobre “prisão especial”. Começo a ler diretamente no texto e
surpreendo-me: o artigo desvela um redator de bons recursos estilísticos –
apesar de uma e outra informação errada, como dizer que o general Góis Monteiro
foi quem originalmente chamou a imprensa de “quarto poder”, visto que a
qualificação nasceu com a Revolução Francesa, sob a forma de “quarto Estado”.
Erra, também, ao afirmar que gravação clandestina é crime (o Supremo Tribunal
já decidiu que não é). Até que olhei acima e descobri que o artigo, com o
título de “Pirita”, era de Jarbas Passarinho. O jornal trocou as bolas. Mas o
engano animou-me a enfrentar as 700 páginas de Um híbrido fértil, o
livro de memórias do ex-governador (edição, a 4ª, de 1997, da Expressão e
Cultura), que repousava na estante. Estou lendo-o à luz do que ele aprendeu com
Napoleão: “Em política, um absurdo não é obstáculo.”
Flor do Lácio – Dói na vista nome de tribo indígena
escrito com k, w e y – letras que não existem no alfabeto português, exceto
para derivados de nomes próprios estrangeiros. Apesar da asneira
multiculturalista das ONGs para considerá-los nações, os índios não são
estrangeiros. E ainda há o desvio de grafar com maiúscula e só no singular (os
Karipúna, os Munduruku, os Akwáwa). Argumenta-se que os idiomas indígenas não
têm o número gramatical que indica mais de um. Isso não vale para a língua
portuguesa. Por mais que o acervo léxico de Camões tenha se enriquecido com
contribuições dos índios (e dos escravos africanos), prevalecem as regras do Vocabulário Ortográfico. Em
Belém, onde o serviço público teve tradição de zelar pelo idioma, as placas
sempre indicaram a rua ou travessa dos Mundurucus, Caripunas, Apinagés.
Jornalismo – Três estudantes me pediram, numa só
semana, definição de jornalismo para trabalhos nas faculdades. Sem tempo para
uma resposta longa, limitei-me ao essencial:
- Jornalismo é apurar, editar e publicar notícias de interesse
público. Mas se pode citar, também, a definição de Charles Dana (1819-1879),
que foi editor do correspondente Karl Marx no New York Daily Tribune: “O
jornalista separa o joio do trigo. E publica o joio.” E há ainda a do humorista
Finley Peter Dunne, também americano, nos anos 20: “A função da imprensa é
confortar os aflitos e afligir os confortados.”
A tristeza do artilheiro – Valdir Cardoso Lebrego foi
um dos meus ídolos. Despontou no santuário de futebol da Rua Curuzu (“De
vitórias e louros coroado”) e embarcou como craque para a Bahia. Num Vitória x
Botafogo do Rio, Nilton Santos teve trabalho com ele e insistiu para que o time
o contratasse. E lá se foi o melhor jogador paraense de todos os tempos furar
as redes do mundo com sua canhota afiada. Acompanhei a carreira dele pelo
rádio, pela Revista do Esporte e, quando os deuses me mimavam, via-o no
cinejornal do Canal 100 bater faltas certeiras como uma seta de Robin Hood. A
bola parecia teleguiada por um míssil inteligente que contornava os beques,
desviava do goleiro e se aninhava no alvo. Ainda é o maior artilheiro do time
da estrela solitária: em 446 jogos, marcou 308 gols. Garrincha fez 242.
A torcida explodia com os petardos do atacante, mas ele
mesmo não comemorava os gols. Estufava a rede e murchava o peito, como se
tivesse errado o caminho da glória. O cronista Armando Nogueira escreveu sobre
a tristeza do artilheiro: “Sempre que o via voltando da área, cabisbaixo, eu o
imaginava a parodiar, bem baixinho, os versos de Manuel Bandeira: ´Faço gol
como quem chora / Faço gol como quem morre.” Estreou na Seleção contra o Chile,
no Maracanã, em 1959, ao lado de Pelé, fazendo dois dos 7 a 0. No jogo
seguinte, no Pacaembu, o Brasil só fez um e ele também. Diz uma lenda do
futebol que quando perguntaram a Pelé com quem fizera a melhor dupla no ataque,
se com Pagão ou Coutinho, o Rei respondeu: “Nenhum deles. O melhor foi o
Quarentinha”.
Recordar é torcer – O saudosismo é uma autobiografia
escrita num só tempo verbal: o pretérito perfeito.
25/março/2001
Produzido originalmente para a revista virtual belemdopara.com.br
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