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Entre o apagão e o
penumbrão
Sérgio Buarque de Gusmão
Duas reflexões sobre a crise de energia, pelos aspectos da
indignação e das providências.
Quanto à indignação, convém notar que não há saída individual
para o racionamento. É compreensível, e saudável no figurino republicano, que
pessoas e empresas queiram proteger seus costumes ou a produção, ainda que
mantenham sua luz acesa num quarteirão às escuras ou seu negócio em atividade
enquanto o dos concorrentes estiver parado. Quem recorre à Justiça para ser
excluído do racionamento não reconhece que a crise da energia é um desastre
coletivo, um caos socializado, uma calamidade comum aos 170 milhões de
brasileiros.
Estamos reféns, como num assalto de rua. Não há meio de
pedirmos um minutinho ao Sr. Assaltante (com maiúscula, pois tratam-se de
príncipes, sociólogos, economistas) para irmos à Justiça apresentar um mandado
de segurança, um habeas corpus que seja, e tentar evitar que o meliante nos tome
os bens e a paz de espírito. Como no assalto, cabe à vítima falar o menos
possível e entregar os anéis para salvar a vida, e, a seguir...bem do que fazer
a seguir falaremos adiante.
A atitude na crise do racionamento é poupar energia, como a
população já está fazendo, para reduzir a intensidade dos apagões que se
avizinham (O apagão diário, previsto para a partir de outubro, será o estágio
mais calamitoso deste mundo de trevas). No racionamento, não há vítimas
isoladas nem podem ser tolerados os inspetores do clarão alheio que ficam
histéricos quando vêem a luz do vizinho acesa (o colunista José Simão, da Folha
de S. Paulo, em grande forma, diz que vai botar silenciador no
ar-condicionado e mandar sua roupa para Dona Rute passar).
Muitos de boa-fé embarcam na versão mentirosa de que o
brasileiro desperdiça energia. Com tantos rios e farto gás, a produção nacional
é de apenas 60 mil megawatts, 10% da americana e 25% da francesa, e o consumo
per capita (2 mil kWh/ano) é um dos menores do mundo, abaixo de países que não
têm parque industrial comparável, como Líbano, Malásia, Venezuela. A iluminação
pública, indispensável ao fluxo da sociedade, consome 3% da energia elétrica, a
mesma porcentagem de apenas duas grandes empresas, as gigantes do alumínio
Albrás (PA) e Alumar (MA).
Quanto às providências,
instituições da sociedade civil, como sindicatos, núcleos de universidades e
juristas, reivindicam participação na Câmara de Gestão da Crise de Energia
Elétrica, o Ministério do Apagão. Talvez possam ao menos reduzir o ritmo da
usina de calamidades do governo. Os “Trapagões, como os chama Zé Simão, querem
cobrar imposto na sobretaxa por si extorsiva para quem consumir acima de 200
kWh/mês. Reeditaram o AI-5 na medida provisória 2.148-1, para suspender a
vigência do Código de Defesa do Consumidor e intervir no Poder Judiciário,
talqualzinho o monstrengo da ditadura
militar de 1968.
A gravidade da crise de energia aponta para a
responsabilização direta do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. É
caso para destituição, por um processo de impedimento a ser instalado no
Congresso, respeitando-se a liturgia democrática que o colocou no poder Seu
dever era, parodiando mais uma vez o Padre Vieira, promover o nosso bem e não
destruir os nossos bens. Com esta gente bem longe, o Brasil teria maiores
condições de recuperar-se no penumbrão em que estamos entrando, num dos piores
momentos da nossa história desde que a tripulação de Cabral acendeu aqui a
primeira lamparina.
Um negócio
indecente
A crise de energia repõe o debate sobre o acintoso subsídio
à Albrás e à Alumar. Segundo dados levantados pelo repórter Abnor Gondim (Jornal
do Brasil, 27/maio/2001), as duas fabricantes de alumínio pagam apenas 18
dólares o megawatt/hora que a usina de Tucuruí produz por 54 dólares. Um
desconto, no mínimo, de 36 dólares. Albrás pertence à Vale do Rio Doce e a um
consórcio do Japão, inclusive o governo (Nippon Amazon Aluminium), e a Alumar é
das multinacionais Shell e Billiton, com participação, ainda, da Alcoa e da
Camargo Corrêa. O contrato é de 1984 e vence daqui a três anos. No ano passado,
a Albrás recebeu um financiamento de R$ 101 milhões do BNDES.
Num ano, o
brasileiro que se prepara para tomar banho frio ajuda as duas metalúrgicas com
uma montanha de dinheiro que cálculos diferentes apontam como superior a 200
milhões de dólares. É a venda, abaixo do preço de produção, de cerca de 1.400
megawatts de energia elétrica. Equivale quase à metade de toda a produção de
Tucuruí. Segundo o senador Ademir Andrade (PSB-PA), as duas grandes empresas
não querem assumir a construção da segunda etapa da usina de Tucuruí, ao custo
de R$ 2 bilhões.
Querem energia barata. Obrigadas, pelo plano de
racionamento, a economizar 25% do que consomem, Albrás e Alumar poderão
revender, em valores do mercado atacadista, a energia que recebem a preços
subsidiados. Se este escândalo se concretizar, será caso para rebelião.
A Fênix voa no
Parque São Jorge
Minha geração tinha, como os caixeiros-viajantes, um amor em
cada porto. Era um time de futebol. Paissandu em Belém e Botafogo no Rio, tive
um flerte de infância com o Santos, rompido quando a máquina de vitórias
liderada por Pelé rivalizou com o time da estrela solitária na disputa pelo
título de melhor do mundo. Quando mudei para São Paulo, em 1972, nenhum clube
me fascinava, nem mesmo a Academia palmeirense que eu aprendera a admirar a
partir de artistas da bola como Dudu, Dino Sani e Ademir da Guia. Um dia fui ao
Pacaembu assistir a um Coríntians e São Paulo, com a tristeza de ver o tricolor
Gérson passear sua canhotinha de ouro fora do Botafogo. Nem lembro o placar,
mas quando saí do estádio era um fiel convertido a uma crença sobrenatural que
muitos chamam, a sério, de nação corintiana.
Como no Catolicismo, prometia-se o céu depois do sofrimento
terrestre, e já estávamos havia 18 anos sem ganhar um campeonato. Mas a
torcida, e eu era a prova, não parava de crescer. O gol de Basílio contra a
Ponte Preta, em 1977, foi como uma lança do bem derrotando os infiéis na
cruzada pela reconquista da Terra Santa chamada vitória.
Há algumas semanas, espremido no penúltimo lugar, meu maior
desejo era não ser rebaixado no Campeonato Paulista. Até que a fabulosa Fênix
emprestou as asas ao time e ele renasceu para o que melhor sabe fazer: vencer,
e pregar um sorriso nos desdentados, nos humilhados e ofendidos, nos sem-teto,
sem-terra, sem-emprego e sem-futuro que veneram o futebol como um sal a
temperar a vida.
Flor do Lácio
As palavras se aposentam – A sigla do ácido
desoxirribonucléico, em português, é ADN, mas foi substituída pela versão em
inglês, DNA, de “deoxyribonucleic acid”. O Aurélio, tão liberal com a
importação de estrangeirismos e a desnacionalização da língua portuguesa, não
transige com esta: manda o consulente de DNA verificar ADN.
DNA é pura macaquice. Não se trata, no caso, da necessária e
incontrolável renovação da língua, que é viva e deve incorporar as novidades,
para manter-se útil ou mesmo apenas na moda. Palavras, como as pessoas, nascem
e morrem, mudam de sentido, enganam nas aparências. Ninguém mais usa desquecido
por aborrecido, delirar por afastar-se, desviver por morrer, carro de praça por
táxi, nem chofer ou condutor, e sim motorista. Segurança é uma palavra-robô,
tomou o emprego de muitas: guarda-costas, capanga, jagunço.
Quantos de nós já não vimos uma palavra ou expressão querida
sair de cena, acomodar-se na naftalina e esperar a reabilitação. Machado de
Assis estava olhando quando botica tomou o lugar de farmácia. “Eu assisti à
queda de um e à ascensão do outro. Os que nasceram posteriormente, acostumados
a ouvir farmácia, chegam a não entender o soneto de Tolentino: – `Numa
escura botica encantoados, etc.” – mas é assim com o resto: as palavras
se aposentam.”
Apagão pede passagem – Criar palavras, e
ouvi-las na boca do povo, deve ser gratificante. Muitos sábios anônimos,
espirituosos, forjam termos que ficam falados, como este neologismo da crise de
energia, apagão. A revista Veja preferiu escrever “Sem luz” na
capa da edição de 16/maio/2001, mas teve de incorporar a novidade em quinze
utilizações no texto. No título da reportagem, botou Blecaute!, e cuidou de
explicar que não usava “black-out” porque blecaute “já está dicionarizado.” Não
diga! Tal qual repórter, jornalista e até revista, que nesta acepção veio do
inglês do “review”.
Miscelânea
# A crise muda hábitos. O presidente Fernando Henrique
Cardoso mandou desligar o aquecedor da piscina do Palácio da Alvorada.
# Águas de março,
a música de Tom Jobim eleita a melhor do Brasil, é plágio de folclore recolhido
por J. B. de Carvalho, em 1933, e de uma versão gravada por Leny Eversong em
1972. A Folha de S.Paulo, que promoveu a eleição, registrou a reação dos
descontentes, como o crítico José Ramos Tinhorão, mas ficou em cima do muro. Aquarela
do Brasil, além de mais bonita e enraizada na alma do povo, saiu inteira do
piano de Ari Barroso.
# Dezoito por cento
dos usuários do Napster, programa que
permite a troca de arquivos de música pela Internet, são cinquentões como eu.
Fiquei mais aliviado. Grande Napster, ora em desuso. Recolhi 14 versões da Aquarela, de Tim Maia a Daniel Barenboim, de Nei Matogrosso a Plácido Domingo.
A de Dori Caymmi parece brotar das entranhas do País. A de Kate Bush
assemelha-se a uma prece, mas ninguém supera os requebros vocais de Gal Costa.
# Convém prevenir:
estou na maioria dos milhões de usuários do Napster que aceita pagar uma taxa
pelas músicas. Onde mais garimparia raridades isoladas, como o Hino Nacional em
ritmo de forró ou Jim Morrison soberbo em House of the rising sun?
# Desde que, há
séculos, vi um vendedor gritar “picolé de pupunha”, na Curuzu, arrancando
gargalhadas da arquibancada, nunca fiquei tão surpreso com a manufatura das
frutas locais quanto ao encontrar na farmácia um sabonete de açaí. Só
falta a Casa Granado, a nova dona da antiga Phebo, fazer seu famoso “polvilho
antisséptico” com carimã.
# Bob Dylan, 60
anos. Eis outro que é melhor que o silêncio. Mas Caetano canta Jokerman melhor que ele, o autor.
# O Brasil agora é
o segundo na classificação da Fifa, abaixo da França, mas, graças a Deus, acima
da Argentina. Leão passeia sua obra.
# Correções: Ficou
a impressão, no texto “Os sinos dobram pela lei de quotas”, que o filósofo Olavo de Carvalho
é favorável. É contra, claro, como todo pensamento da direita republicana dos
Estados Unidos que ele representa no Brasil.
27/maio/2001
Publicado originalmente na revista virtual belemdopara.com.br
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