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Nos desvãos da Cabanagem
Sérgio Buarque de Gusmão
A divulgação de documentos ingleses sobre a Cabanagem poderá
ser uma motivação para que pesquisadores aprofundem os estudos acerca de
aspectos (e são muitos) ainda nebulosos desta que foi a mais sangrenta guerra
civil do Brasil. O material histórico, descoberto em Londres pelo pesquisador
David Cleary, já traduzido no Arquivo Público do Pará, atesta que o regente
Diogo Antônio Feijó pediu, em 1835, que a Inglaterra e a França mandassem,
oficiosa e secretamente, tropas para esmagar a rebelião. A carta do embaixador
inglês H. S. Fox, relatando a Londres o apelo de Feijó, com data de 17/12/1835,
está no arquivo da
Folha. “Esses documentos mostram que Feijó não sabia o que fazer com o
abacaxi que era a situação no norte do país”, disse à Folha de S.Paulo
(13/10/1999) o diretor do arquivo paraense, Geraldo Mártires Coelho.
A Cabanagem é reconhecida como um movimento popular
importante, mas pouco estudado. Tal como a Revolta dos Alfaiates, ocorrida na
Bahia em 1798, passa como um cometa pelos livros da tal “história oficial”. O
historiador Rocha Pombo (História do Brasil, (Melhoramentos, 1961,
revista e ampliada por Hélio Viana), nem menciona a Cabanagem. Por isso é
necessário, como diz o pesquisador Décio Freitas, “resgatá-la dos desvãos em
que a amortalhou uma historiografia velhaca.”
Como já aconteceu com a Conjuração Mineira, estudada pelo
inglês Kenneth Maxwell (A devassa da devassa, Paz e Terra, 1996), parece
que dependemos dos brasilianistas para elucidar a revolta dos cabanos além das
interpretações que a carência de documentos estimula a níveis próximos da
prestidigitação. É o que acontece com a polêmica acerca do suposto caráter
separatista da rebelião. E com a reação de Feijó, recém- eleito para o cargo de
regente, enquanto se aguardava que Dom Pedro II alcançasse a maioridade para
assumir o trono. Com a divulgação dos documentos ingleses caem mitos repetidos
há anos nos livros didáticos, como o de
Francisco de Assis Silva e Pedro Ivo de Assis Bastos (História do
Brasil, Editora Moderna, 1981). A propósito das rebeliões no Pará e no Rio
Grande do Sul (a Farroupilha), eles garantem: “...Feijó faz pouco para
detê-las, pelas suas características liberais.” Na verdade, o regente combateu
a ambas com mão-de-ferro, mas, por mais que nos desagrade, isto não faz dele um
capitão-do-mato. Para compreender este padre liberal “na vanguarda do tempo”
pode-se ler a coleção de textos Diogo Antônio Feijó (Editora 34, 1999,
organizada por Jorge Caldeira).
Uma pesquisa profunda teria de desbastar dúvidas que ainda
hoje atrapalham o entendimento das motivações e a condução do movimento. Um
ponto importante a determinar é por que uma revolta desencadeada pelas elites e
assumida pela massa indigente, a única, aliás, que levou o povo ao poder nos
500 anos do Brasil, não produziu líderes à altura da sua magnitude. Um velho
chavão diz que se não houver líderes formados, os processos históricos geram os
seus estadistas. Na Cabanagem, porém, ainda que se faça justiça à bravura
militar de Eduardo Angelim, o terceiro presidente cabano, nenhum dirigente
elaborou a práxis que desse sustentação à guerra popular. Ainda segundo Décio
Freitas, o povo tomou o poder mas não sabia o que fazer com ele. O primeiro
presidente foi o rico latifundiário Felix Antônio Clemente Malcher, tão
distante dos revoltosos que logo foi apeado da direção, já em fevereiro de
1835, e morto pelos cabanos.
Pode-se aprofundar, também, o quanto a Cabanagem foi uma
continuação das lutas pela Independência, à qual o Pará só aderiu em 1823,
sendo, por isso, aquela estrela solitária que figura na parte de cima da
Bandeira do Brasil. As tarefas profundas da Independência não estavam
completadas, como não estão até hoje. Enquanto, na Corte, o estadista José
Bonifácio empenhava-se em conquistar o Brasil para os brasileiros, no Pará a
elite portuguesa, desdenhando o novo governo nacional, mantinha-se no poder de
fato e agia como donatária de um território luso em que o Marquês de Pombal sonhara
instalar a sede do Reino.
É um truísmo dizer que a história se relata com fatos e não
com hipóteses de como poderia ter sido, e constitui erro crasso analisar o
passado com a lente do presente, mas há avaliações a serem feitas à luz do rumo
que a revolta tomou. Uma dessas linhas auxiliares na investigação é o efeito
desastroso da morte prematura do ideólogo Batista Campos, seis dias antes da
invasão de Belém. Outra, a falta de um programa que unificasse, minimamente, a
elite antiportuguesa e a massa miserável, e fosse capaz de entender que o pacto
colonial se rompera e estava em gestação a consolidação dos estados nacionais
na América do Sul. Sem doutrina, o governo popular, popular sobretudo na fase
de Angelim, caiu nas ruas, e foi esmagado pelo Império. Desafiar o rei era o
crime mais hediondo – e imprudente, exceto, como ensinou um xogum, se fosse
para vencer.
Biografias – Há sete anos não vou ao Pará. Corro,
portanto, o risco de dar o passado como presente (nem sei se algumas obras de
Sísifo, como a restauração da igreja de Santo Alexandre, já foram
completadas...). Não sei se a produção editorial acompanha o progresso do mundo
(oxalá o esplêndido programa de edição e reedição de obras como o realizado
pela Universidade Federal continue de pé). Mas as novas gerações, ainda que
malformadas nos paradigmas de Max Weber, poderiam pagar as dívidas da minha e
produzir, por exemplo, biografias do cônego do povo Batista Campos, do sábio
esquecido Serzedelo Corrêa e do polêmico jornalista Paulo Maranhão, da extinta Folha
do Norte. De Serzedelo voltarei a falar, talvez antes mesmo de achar um
exemplar de seu livro O problema econômico do Brasil, de 1903, que
procuro nos sebos como um garimpeiro cata ouro.
Falandozinho – Encomendei à Livraria Jinkings um exemplar
de Aspectos do falar paraense, de
Maria de Nazaré Vieira, com a esperança de encontrar explicação para o
engenhoso uso de diminutivos no vocabulário caboclo. Raimundo Moraes registrou
este amaciamento das palavras no romance Os igaraiúnas (Roswitha Kempf
Editores, 1985), apequenando-esticando não só adjetivos e substantivos, o que é
trivial em qualquer idioma, mas também verbos, numa carinhosa reconstrução da
linguagem. Como este diálogo memorável:
– Estazinho doente, meu bem?
– Melhorandozinho.
Talvez por essa e outras, Eça de Queirós disse que no Brasil
“se fala português com açúcar.”
Réquiem tardio – Nesta primeira colaboração para a
revista virtual BelemdoPara, não poderia repetir uma omissão: Euclides
Bandeira. Quando meu amigo morreu, em..., tentei rabiscar um inventário de
nossas relações, mas foi difícil transcrever sentimentos na dor da perda.
Agora, voltamos a ser companheiros de espaço (ele está em
http://www.belemdopara.com.br/colaboradores/index.cfm?autor=5) tal qual o fomos
na Província do Pará, nos anos 60, quando Bandeira foi um dos primeiros
a me guiar nesta caverna escura que é o jornalismo. Eu era um novato, mas ele nunca botou banca, jamais me pregou
aquelas peças humilhantes que antes recepcionavam os focas nas redações, e deu-me,
com o escritor Vicente Cecim, editor da página de polícia, dicas de como apurar
e redigir uma notícia. Bandeira escrevia, cantava e representava bem. A seu
jeito, foi um cavalheiro romântico. Se houver um céu, ele está lá, tomando umas
duas com Vinícius de Morais.
18/março/2001
Publicado originalmente na revista virtual
belemdopara.com.br
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